Devia morrer-se de outra maneira
Devia morrer-se de outra maneira. Transformarmo-nos em fumo, por exemplo. Ou em nuvens. Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer: «Fulano de tal comunica a V. Ex.ª que vai transformar-se em nuvem hoje às 9 horas. Traje de passeio». E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida. Apertos de mão quentes. Ternura de calafrio. «Adeus! Adeus!» E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes… (primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois, os cabelos…) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo… tão leve… tão subtil… tão pólen… como aquela nuvem além (vêem?) – nesta tarde de outono ainda tocada por um vento de lábios azuis… José Gomes Ferreira , in Cinzas Imagem: MB, Moita, 03.10.2026