"Existe a noite, e existe o breu. Noite é o velado coração de Deus Esse que por pudor não mais procuro. Breu é quando tu te afastas ou dizes Que viajas, e um sol de gelo Petrifica-me a cara e desobriga-me De fidelidade e de conjura. O desejo Esse da carne, a mim não me faz medo. Assim como me veio, também não me avassala. Sabes por quê? Lutei com Aquele. E dele também não fui lacaia." Hilda Hilst Imagem: MB, Moita, 18.01.2026
O nosso poder é o de transformarmos os dias. O nosso poder é o de podermos transformar a tristeza em alegria ou a solidão em companhia. O maior poder, e o mais belo, é o de conseguirmos transformar as coisas em que tocamos. É o de tocarmos o coração dos outros. Às vezes, tocando na ferida. O que arde cura. Tocar a alma dos outros é o maior dom. Talvez o único. Talvez as palavras e a música e a pintura e os sorrisos e todas as coisas belas que dão beleza aos nossos dias sejam apenas degraus dessa escada que não foi feita para subir mas para entrar nos corações que deixaram a chave do lado de fora da porta e não conseguem abri-la sozinhos. Tocar o coração dos outros é extraordinário. É o que sabem fazer a bondade e a generosidade. É o que sabe fazer a poesia. Midas transformava em ouro tudo aquilo em que tocava. Pobre Midas, que tão rico quis ser. Não sabia que a única coisa no mundo que nos empobrece é a ganância e que aquilo que nos enriquece é o que damos. Midas transformava em ...
"Vivem em nós inúmeros; Se penso ou sinto, ignoro Quem é que pensa ou sente. Sou somente o lugar Onde se sente ou pensa. Tenho mais almas que uma. Há mais eus do que eu mesmo. Existo todavia Indiferente a todos. Faço-os calar: eu falo. Os impulsos cruzados Do que sinto ou não sinto Disputam em quem sou. Ignoro-os. Nada ditam A quem me sei: eu 'screvo." Ricardo Reis , in Odes Imagem: MB, Gaio, 18.01.2026 Franz Schubert - To Music. Lied op. 88 n°.4, D.547 by Anne Gastinel