Às vezes uma nuvem é só uma nuvem

 

" Certa vez, deixou de fazer vento e uma nuvem instalou-se no céu, mesmo por cima de uma estrada.
A princípio ninguém reparava. Os condutores iam absortos e só os meninos sentados no banco de trás notavam que a nuvem estava lá.
Céu azul de um lado e do outro, e a nuvem no meio. Nem sequer se viam pássaros. A nuvem pairava sozinha. Mais nada.
Ao fim de algum tempo, os meteorologistas espantaram -se com o fenómeno. Deveria passar-se algo estranho, porque a ausência de vento não era habitual e nunca se vira uma nuvem assim.
Fosse o que fosse, lá estava ela.
Os dias e as noites sucediam-se e a nuvem não subia nem descia, não evaporava nem chovia.
As autoridades inspecionaram. As estações televisão apareceram para dar notícia e depois vieram especialistas disto e daquilo. Que alvoroço!
Em breve, todos falavam do assunto e ninguém tinha falta de opinião. Afinal, o que seria?
Numa mesma família, chegava a haver cinco convicções diferentes: que a nuvem era milagrosa, que era só poluição, que era prenúncio de catástrofes, que era uma ideia em estado puro ou uma pista de aterragem para discos voadores.
Perante a nuvem imóvel, uns mediram, outros peregrinaram, uns fugiram, outros fotografaram. Com tanta agitação, até fecharam a estrada.
Um dia, sem aviso e quando menos se esperava, levantou-se vento na região.
As searas voltaram a ondular e as cegonhas cruzaram novamente os ares. Devagarinho, a nuvem desfez-se contra o céu azul, soprada pelo vento ameno e invisível.
Todos os que se tinham sobressaltado com o prodígio tiveram de se desadmirar, desindignar, desamedrontar ou desempolgar, e aceitar a realidade.
Às vezes, uma nuvem é só uma nuvem."

Rita Canas Mendes, in A Nuvem

Imagem: MB, Moita, 26.12.2025



Comentários

Mensagens populares deste blogue

Aguenta

A melhor casa possível