Insubstituível
"O Smurf Valentão partiu-se. Ficaste sentado, a olhá-lo, como se fosse um irmão caído em combate. Choraste sem pudor, sem narrativas. Não quiseste ouvir falar em substitutos:
— É este o meu amigo.
E aquilo ficou a bater-me cá dentro até agora.
Dizem que ninguém é insubstituível — uma frase feita, uma mentira disfarçada de sabedoria barata. É o contrário: ninguém é substituível. Tudo o que importa é insubstituível. Pessoas, objectos, memórias, afectos. Não há duas mães, não há dois cheiros de comidinha da avó, não há dois Smurfs partidos que nos partam da mesma maneira. A infância ensina depressa aquilo que a idade adulta desaprende com arrogância: o que é valioso não se repete. É uma bênção e uma tragédia. Eu sei e tu já sabes também, meu filho.
Ficámos ali contigo, com aquele boneco mutilado nas mãos pequenas, pensámos no que é o amor: é isto. É a fidelidade aos estilhaços, a insustentável e milagrosa ternura pela ruína. Quando um dia tiveres de aprender a lidar com perdas maiores — e terás —, vais saber que o que parte continua a ser nosso, mesmo partido.
O Smurf partiu-se. Tu não deixaste que fosse embora. Nem a tua mãe, nem eu. Ficámos contigo, aprendemos contigo. Quando se gosta profundamente, é assim: continuamos a amar o que já não está inteiro."

Comentários
Enviar um comentário