Um dia acordas...

 

"Um dia acordas e será demasiado tarde
1.
Um dia acordas e será demasiado tarde. 
Deixarás de ter a possibilidade de fazer, de ir, de arriscar, de dizer, de confrontar, de pedir desculpa, de abraçar ou de bater a porta. 
São lugares comuns, manifesto irritante de autoajuda, o que quiseres – mas temos confiança, conversamos diariamente, os postais são isso, uma carta que te escrevo todos os dias.
2.
Isto passa a galopar, estamos bem e deixamos de estar, nunca sabemos o que está escrito num qualquer caderno impossível de encontrar. 
Um dia acordas e já não terás tempo. 
E ficarás com isso colado ao teu movimento. 
O beijo que não deste. 
A conversa que não tiveste. 
O risco que não ousaste. 
O projeto que não arriscaste. 
3.
Acorda e vai. 
Telefona. 
Abraça os teus pais, agradece-lhes… 
… mesmo que te sintas prejudicado, mal-amado, esquecido. 
Não deixes nada por dizer, suaviza o peso que te castiga qualquer possibilidade de descansar, de te apaziguares com o tanto que ainda te resta.
4.
Ou livra-te das ervas daninhas. 
Do que te faz mal. 
De pessoas tóxicas.
De gente que te puxa para baixo. 
De gente que não é boa, que não te convence que podes voar. 
5.
Um dia será tarde. 
E hoje já não é cedo. 
Vai.
Acorda e vai. 
Deixa o sol entrar no quarto onde dormes, desperta com a vida a bater-te nos olhos."


Luís Osório

Imagem: MB, Moita, 24.05.2026



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