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Intimidade

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  "No coração da mina mais secreta, No interior do fruto mais distante, Na vibração da nota mais discreta, No búzio mais convolto e ressoante, Na camada mais densa da pintura, Na veia que no corpo mais nos sonde, Na palavra que diga mais brandura, Na raiz que mais desce, mais esconde, No silêncio mais fundo desta pausa, Em que a vida se fez perenidade, Procuro a tua mão, decifro a causa De querer e não crer, final, intimidade. José Saramago Imagem. MB, Gaio, 13.12.2025

Desapontamento

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  "As pessoas só são ansiosas porque fogem dos problemas. E só se deprimem porque aqueles de quem gostam não percebem “um caracol” daquilo que elas sentem; e, por causa disso, cada tristeza que vivam expõe-nas a mais outro desamparo. Ansiedade e depressão são sempre um exercício de sabedoria. Debaixo da ansiedade vive o medo. Paredes-meias com a depressão uma solidão que se intromete. E, no entanto, somos todos muito próximos uns dos outros. Convivemos e conversamos. Partilhamos gostos mas jogamos mais do que devíamos com tudo o que sentimos. As nossas vidas cruzam-se em muitas caminhadas. E as personagens que acabamos por criar ganham tamanha autonomia que, na maior parte das vezes, parecem ser nós. Mas, por pudor - às vezes, talvez por teimosia - evitamo-nos conhecer. E, por isso, de omissão em omissão, aquilo de que fugimos de perceber, traz-nos ao medo. E a forma como evitamos falar do que sentimos empurra-nos para a sensação de que, por mais que acompanhados, estamos sós. Por...

Ai, Margarida

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  Ai, Margarida, Se eu te desse a minha vida, Que farias tu com ela? — Tirava os brincos do prego, Casava c'um homem cego E ia morar para a Estrela. Mas, Margarida, Se eu te desse a minha vida, Que diria tua mãe? — (Ela conhece-me a fundo.) Que há muito parvo no mundo, E que eras parvo também. E, Margarida, Se eu te desse a minha vida No sentido de morrer? — Eu iria ao teu enterro, Mas achava que era um erro Querer amar sem viver. Mas, Margarida, Se este dar-te a minha vida Não fosse senão poesia? — Então, filho, nada feito. Fica tudo sem efeito. Nesta casa não se fia. Comunicado pelo Engenheiro Naval Sr. Álvaro de Campos em estado de inconsciência alcoólica, 1-10-1927 Fernando Pessoa , Álvaro de Campos - Livro de Versos Imagem: MB, Gaio, 13.12.2025 https://www.youtube.com/watch?v=6SiCdSwHysc  

Uma mão-cheia

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  "If the hour comes, and there´s no one to beg or blame but yourself, you learn that what we have in the end is just a handful more than what was born in us. That unique handful, what we add to what we are, is the only story of us that isn´t told by someone else." Gregory David Roberts , in The Mountain Shadow Imagem: MB, Gaio, 13.12.2025

O coração a bater

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  "O coração a bater  e as ondas do mar para um homem cheio de sol são directamente proporcionais ao gelo a estalar no copo e ao crepitar da lenha para um homem que está só." Joaquim Castro Caldas , in Interpretação da vontade do pássaro, Edição Exclamação Imagem: MB, Republica Dominicana, 30.11.2025

Uma amálgama de coisas

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  "For a long time I stared at that blue glass in the palm of my hand after I found it on the ground and picked it up. In such fragile things and subtle ways is the pattern of our lives revealed to us. We are collections of things that we find and experience and value and keep inside ourselves, sometimes knowingly, sometimes unknowingly, and that collection of things is what we finally become." Gregory David Roberts , in The Mountain shadow. Imagem: MB, Bayahibe, República Dominicana, 30.11.2025

Horizontes

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  "As nuvens apaixonam-se pelos horizontes." Mark Strand , in 89 nuvens, edição Flâneur Imagem: MB, República Dominicana, 30.11.2025

Voando

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  "Melhor do que o amor é estar aqui sentado de coração leve, e não ter segredo nenhum para contar, e não recordar da vida mais do que a diluída imagem de alguns pássaros voando à procura do outro lado do rio." José Carlos Barros , Lídia, in Estação (os poemas do DN Jovem) , edição On Y Va Imagem: MB, República Dominicana, 27.11.2025

Novos começos

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  Há dias em que a luz chega antes de nós. Entra pela janela, toca o chão e diz, sem palavras: “Hoje podes começar outra vez.” Os novos começos não pertencem ao calendário — pertencem ao momento em que percebemos que podemos escolher a luz. A oportunidade é um gesto. Um clarão suave que se acende por dentro, mesmo quando o mundo lá fora ainda parece cinzento. Começar é arriscar. É ouvir o arrepio que diz “vai”, mesmo sem garantias. É avançar sem esperar pela certeza — porque a certeza conforta, mas não transforma. Há instantes em que uma ligação inesperada ilumina mais do que qualquer plano perfeito. A conexão torna-se bússola. Mostra-nos que não caminhamos sozinhos, que há presença, gesto, silêncio e mão estendida quando menos esperamos. Sentir é deixar a vida tocar-nos. É permitir que a beleza entre: uma música que nos encontra, uma palavra que abre espaço, uma luz que nos devolve a nós mesmos. E não há novo começo sem coragem. Coragem de dizer “sim” ao que nos acende. Coragem de...

Faz com que conte

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  Abre o ano de par em par. Olha para ti olhos nos olhos. Vê o que guardas e já não te serve. Vê o que está a mais. Não ocupes o espaço das coisas importantes com coisas que não adiantam. Com coisas que atrasam a tua vontade. Com coisas ocas. São as que pesam mais. Não guardes ofensas. Não guardes rancor. Não guardes nada que te aperte. Nenhum atilho que te impeça os movimentos. Guarda só os abraços. São a única coisa que, quanto mais apertada, mais te liberta. Guarda os sorrisos, as flores e os corações. Mantém os amigos verdadeiros. Não precisas de quem te procura só quando precisa. Não precisas de nada que possas trocar. Não te curves para apanhar do chão o carinho que alguém deixou cair. Varre-o. Não te serve. Não te curves a não ser para estender a mão, não te baixes a não ser para ajudar alguém a levantar. Deixa ficar a bondade e alguma raiva. Às vezes é preciso dar um murro na mesa. Deixa ficar a poesia e a música. Canta, dança, escreve. Deixa ficar os talentos que ainda não...

Deixar a bagagem

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  "Fechei os olhos e pedi um favor ao vento... leve tudo que for desnecessário. Ando cansada de bagagens pesadas. Daqui pra frente, levo apenas o que couber no bolso e no coração..." Cora Coralina Imagem: MB, Sanoa, República Dominicana, 27.11.2025

Que ninguém me peça nada

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  "(...) Na minha vida nem sempre a bússola se atrai ao mesmo norte. Que ninguém me peça nada. Nada. Deixai-me com o meu dia que nem sempre é dia, com a minha noite que nem sempre é noite como a alma quer. Não sei caminhos de cor. " Fernando Namora , in Mar de Sargaços Imagem: MB, República Dominicana, 30.11.2025

A sabedoria dos dias

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  "as manhãs as árvores eu sou pássaro o mundo é belo era uma vez uma história a sabedoria dos dias" João Fernandes Imagem: MB, Moita, 25.11.2025

Encantamento

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  "O encantamento é uma casa que tem o silêncio por tecto.” Mia Couto Imagem: MB, República Dominicana, 27.11.2025

Tranquilidade

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  "Quando compreendemos a primeira e a mais importante das regras, que tudo que existe é bom pelo fato de existir, então um sentimento de paz e de tranquilidade, gradativamente mais profundo, apossar-se-á de nós. Somente nessa tranquilidade aprenderemos a contemplar as coisas e elas nos revelarão o seu significado.  Pouco a pouco nos libertaremos da obsessão de lutar a favor ou contra alguma coisa sem, no entanto, deixarmos de agir.  A verdadeira atividade nasce da tranquilidade. Quando o homem puder deixar algo acontecer, sem querer logo interferir, esse será um sinal de maturidade." Thorwald Dethlefsen , O Desafio do Destino Imagem: MB, Republica Dominicana, 30.11.2025

Ladaínha dos póstumos Natais

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  Há-de vir um Natal e será o primeiro em que se veja à mesa o meu lugar vazio Há-de vir um Natal e será o primeiro em que hão-de me lembrar de modo menos nítido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que só uma voz me evoque a sós consigo Há-de vir um Natal e será o primeiro em que não viva já ninguém meu conhecido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem vivo esteja um verso deste livro Há-de vir um Natal e será o primeiro em que terei de novo o Nada a sós comigo Há-de vir um Natal e será o primeiro em que nem o Natal terá qualquer sentido Há-de vir um Natal e será o primeiro em que o Nada retome a cor do Infinito David Mourão-Ferreira , in Cancioneiro de Natal Imagem: MB, Moita, 23.12.2025

Natal de verdade

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  Não quero roupa, quero agasalho. Não quero relógios, quero tempo. Não quero telemóveis, quero ligações. Não quero chocolates, quero doçura. Nas palavras e nos gestos. Não quero lâmpadas, quero luz. Brilho no olhar. Não quero desembrulhar prendas, quero desapertar o coração. Quero risos. Não quero pressa, o amor leva tempo. Não quero cadeiras, quero lugares. Há sempre lugar para quem nos quer bem. Não quero conversa, quero diálogo. Não quero embrulhos, quero abraços. Não quero encomendas, quero entrega. Não quero lembranças, quero memórias. Não quero que seja uma noite, quero que seja uma vida. Natal de verdade. Elisabete Bárbara , in lado.a.lado Imagem: MB, Moita, 14.11.2024

Natal todo o ano

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  "Eu honrarei o Natal em meu coração, e tentarei manter o ano todo." Charles Dickens Imagem: MB, Moita, dezembro 2025

Falha?

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  "- Falhámos a vida, menino!  - ‎Creio que sim ... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. (...) E nunca se é assim (...). Às vezes melhor, mas sempre diferente." Eça de Queiroz , in Os Maias Imagem: MB, Moita, 23.11.2025

Poema de 2ª feira

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  "Há certas cores, perfumes, vestígios que ficam para sempre ligados uns aos outros em nossa mente - associados como uma eterna e involuntária projeção. Assim, amarelo será para sempre Van Gogh Cerejeiras serão Japão segunda feira - dia de amassar o pão. O pão que os diabos e os demônios amassam. Aquele que descansou no domingo retorna ao ponto do ônibus à  mesa do escritório a vitrine do florista lhe passa desapercebida. Notícias enchem os ouvidos mas não capturam os sentidos tão absorvidos estamos ao entrar na segunda feira e no seu zumbido. Segunda feira esconde a primeira feira vem antes da terça  - terceira e quarta parece tão distante. É sempre um dia depois ou um dia antes. Dia em que arrastamos nossos corpos em direção contrária   em que exercitamos a disciplina anti poética. O dia mais banal de todos os dias." Anisia Cotta , 2001 Imagem: MB, Lisboa, 24.11.2025 (2ª feira)